Resenha #183: Mudbound - Lágrimas Sobre o Mississippi


Título: Mudbound – Lágrimas Sobre o Mississippi
AutoraHillary Jordan
Editora: Arqueiro
Nº de Páginas: 272
Um amor proibido, uma traição terrível, uma agressão selvagem. Um romance de força impressionante, que nos faz mergulhar nas contradições do Mississippi pós-Segunda Guerra Mundial.
Ao descobrir que o marido, Henry, acaba de comprar uma fazenda de algodão no Sul dos Estados Unidos, Laura McAllan, uma típica mulher da cidade, compreende que nunca mais será feliz. Apesar disso, ela se esforça para criar as filhas num lugar inóspito, sob os olhos vigilantes e cruéis de seu sogro.
Enquanto os McAllans lutam para fazer prosperar uma terra infértil, dois bravos e condecorados soldados retornam do front e alteram para sempre a dinâmica não só da fazenda, mas da própria cidade. Jamie, o jovem e sedutor irmão de Henry, faz Laura de repente renascer para a vida, enquanto Ronsel, filho dos arrendatários negros que trabalham para Henry, demonstra uma altivez que não será aceita facilmente pelos brancos da região.
De fato, quando os jovens ex-combatentes se tornam amigos, sua improvável relação desperta sentimentos violentos nos habitantes e uma nova e impiedosa batalha tem início na vida de todos.
Alternando a narrativa entre vários pontos de vista, este premiado romance oferece ao leitor diferentes versões dos acontecimentos. Os personagens, lutando por sentimentos de amor e honra num lugar e época brutais, se veem dentro de uma tragédia de enormes proporções e encontram redenção onde menos esperam.
 Olá pessoal, tudo bom com vocês? Hoje venho com a resenha de um livro forte, emocionante e que nos apresenta um Mississippi pós Segunda Guerra Mundial repleto de racismo e segregação racial. 
Que tal conhecer um pouco sobre Mudbound – Lágrimas sobre o Mississippi, da autora Hillary Jordan?

A verdade não é tão simples. A morte pode ser inevitável, mas o amor, não.O amor, você tem que optar por ele. Vou começar com isso. Com o amor.

Em Mudboud, em uma narrativa que alterna entre diversos pontos de vista dos personagens principais, conhecemos a história de Laura, uma mulher solteira que começava a ficar velha para os padrões sociais da época. Quando Henry surge, apesar de não brotar uma paixão avassaladora entre eles, o rapaz acaba cultivando a simpatia da moça e de sua família. Laura vê em Henry a possibilidade de construir uma família e isso acaba sendo fator determinante para que se case com o homem.

Laura e Henry formam uma família, tem duas filhas e suas vidas encontram-se bem confortáveis até que uma mudança drástica é ocasionada pela compra de uma fazenda de algodão no Mississippi.  Henry, um homem que sempre valorizou o trabalho no campo, vê nessa oportunidade a chance de se realizar, no entanto, não leva em consideração que sua mulher fora criada na cidade e que a última coisa que a mesma esperava era morar em uma fazenda no meio do nada, onde sequer havia um banheiro ou eletricidade.

No entanto, um fator é determinante aqui para que entendam o desenvolvimento desta trama: Henry e Laura são brancos e donos da fazenda onde o plantio principal é o algodão.

Nesta mesma fazenda viviam os arrendatários Florence e Hap, genitores de uma família negra que luta todos os dias por sua independência financeira. Em uma época extremamente segregacionista, eles vivem da melhor maneira que podem, sonhando com o dia em que cultivarão suas próprias terras e serão donos do que produzirem.
Florence acaba indo trabalhar na casa de Laura e a partir daí veremos o choque social e racial existente naquela realidade. É a partir de tal contato que a história começa a tomar rumo de fato, mas, um acontecimento em especial determinará o futuro de todos os personagens: A volta de dois soldados sobreviventes da guerra. Um deles, Jamie, um homem branco, irmão de Henry, visto por todos como um herói de guerra; O segundo, Ronsel, negro, filho de Florence e Hap, que atuou no pelotão de frente, dentro de tanques e assim garantiu a segurança de grande parte das tropas. Se ele é visto como herói? Não por aqueles que se encontram no Mississippi, já que nunca colocariam um negro em tal posição.

Crioulo, Macaco, Tição. Tanto tempo defendendo meu país lá fora e, ao voltar, a primeira coisa que vejo é que não mudou nada: os negros ainda são obrigados a se sentar nos bancos traseiros dos ônibus, ainda são proibidos de usar a porta da frente das lojas, ainda colhem o algodão dos brancos e ainda pedem licença a esses mesmos brancos para tudo. Pouco importava que tivéssemos atendido ao chamado para lutar a guerra deles: para os brancos, ainda éramos apenas crioulos. E os soldados negros que haviam morrido, apenas crioulos mortos.
No entanto, Ronsel conviveu durante anos em uma Europa muito menos racista que o local em que se encontra. Viver em outra realidade, onde muitas vezes brancos e negros são tratados como iguais faz com que não aceite todo o racismo que lhe é dirigido, ainda que tenha que fazê-lo para sobreviver.

Não ficamos naquele país por muito tempo, mas serei eternamente grato àquela gente inglesa que nos recebeu tão bem. Foi a primeira vez na vida que me senti primeiro homem, depois negro.
Quando o destino de todos esses personagens se cruzam, muitos acontecimentos se desencadearão, formando uma trama forte, que tira o leitor de sua zona de conforto e nos apresenta um enredo pós segunda guerra mundial, com uma realidade repleta de intolerância, racismo e que mostra bem o perigo da ignorância.

Não sei sequer por onde começar falando sobre essa história tão forte e repleta de significados. Começo falando sobre seu enredo que nos mostra uma realidade cruel e visceral sobre o racismo? Ou sobre a forma como nos é mostrada como a ignorância e intolerância, quando caminham juntas, podem deixar sequelas ainda maiores que a de uma guerra?

O enredo intercalado entre pontos de vista de personagens deixa a trama mais dinâmica e ainda mais forte, pois você passa a perceber todos os pontos de vista de uma sociedade, ora marcada pela intolerância e preconceito, ora pela esperança de se ver livre de uma realidade tão dura e cruel.

Este foi um daqueles livros que mexeu comigo e ficou em minha mente por muito, muito tempo sabe? Na verdade ainda está. Apesar de não ter me emocionado tanto quanto acreditei que me emocionaria, o livro me tocou muito e isso faz com que ainda tenha dificuldade em falar tudo o que senti durante a leitura.

A forma como você percebe que o racismo está enraizado no pensamento dos personagens brancos e como as atrocidades de um pensamento de que são superiores aos negros é plantada em seu interior desde cedo é assustador, de tanto que se assemelha ao real. Incomoda tanto a essas pessoas que alguém pense diferente que o simples fato de um negro querer sair pela porta da frente de uma loja – onde ele era um cliente como qualquer outro – cause sentimentos de repudia que é assombroso.

É impossível ler este livro sem querer entrar em suas páginas e querer mostrar para todas aquelas pessoas como seus pensamentos são errados, como muitos pensamentos e ações são monstruosos e como aquilo estava tomando caminhos tão tortuosos e perigosos.

É um livro com personagens que se assemelham ao real e talvez por isso se torne desconfortável em alguns pontos da leitura, justamente por mostrar tão de perto e de forma tão clara os lados fracos e podres do ser humano que de fato existiram e que apesar de muitos acharem que não existe mais, ainda está muito presente em nossa sociedade. O racismo ainda não acabou e admitir isso é o primeiro passo para erradicá-lo.

Mas não é só de racismo que este livro se sustenta. Ele também trata de relações familiares, ora baseadas em cumplicidade, ora em imposição, de sonhos e sobre os fantasmas e traumas que uma guerra pode causar em um ser humano, assim como a intolerância humana.
A título de curiosidade, este livro já foi adaptado para o cinema e sua música tema concorreu ao Óscar! Eu ainda não vi o filme, mas espero poder fazê-lo em breve, já que o mesmo parece estar bem emocionante!


Enfim! Podia passar um bom tempo aqui falando sobre esse livro, que não foi uma leitura fácil, mas foi extremamente necessária. No entanto, prefiro recomendar esta leitura a vocês e deixar que tirem suas próprias conclusões. Uma leitura forte, que te fará refletir e que te fará enxergar realidades e situações de uma maneira crua e visceral, mas, extremamente necessária. Leia este livro, você não irá se arrepender. Garanto que Mudbound não deixará seus pensamentos por um bom tempo após a leitura.

6 comentários:

  1. Eu tô morrendo por esse livro! Estou postergando a compra até ficar num preço legal, mas confesso que estou quase gastando! Eu vi o trailer do filme, aí fiquei doida com a história e fi ver que tinha o livro. O que mais me interessou mesmo foi esse enredo forte, a leitura carregada de tantas coisas erradas e que continuam acontecendo até hoje, por pensamentos ridículos de que a cor te faz melhor ou pior que alguém. Quero muto ler! Obrigada pela resenha!

    Bjoxx ~ www.stalker-literaria.com ♥

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  2. Oi tudo bem? Não conhecia esse livro, mas acabei de ver o trailler do filme, e fiquei curiosa sobre ele. Pela sua resenha parece que te impactou bastante esse livro e não é para menos racismo e diferença social sempre me deixa indignada também, e uma era opressora, sou contra abuso de poder e esse livro me parece que tem muito disso. Parabéns pela resenha fiquei curiosa sobre o desfecho da história que com certeza irei ler, obrigado pela dica, bjs!

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  3. Li poucos livros que falassem sobre racismo. E só de ler sua resenha já me dá um agonia de saber que essas pessoas têm pensamentos tão errados, baseados na ignorância. Essa parece ser uma leitura obrigatória, mesmo que dê raiva de algumas situações. Gostei bastante da sua resenha, e fiquei curiosa para saber mais sobre o desfecho dos personagens e da trama.
    beijos

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  4. Oi! Assisti Mudbound e achei um relato bastante realista do que foi a sociedade americana no pós-guerra, é uma história bem impactante mesmo. Ainda não li o livro, mas pelas suas palavras deu para perceber que deve ter um poder de impacto ainda maior do que o filme. É muito triste [e revoltante] saber que tantas pessoas sofreram preconceito e ainda sofrem. É obviamente uma leitura mais do que necessária hoje e sempre, para fazer com que não esqueçamos dessas situações e que temos que fazer o nosso possível para mudar isso.
    Beijos!

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  5. Eu tô me segurando para não ver a adaptação porque quero ler o livro primeiro. Como mulher negra, sei que vou me emocionar bastante porque de certo modo, vou me ver no livro, por mais que o contexto de segregação já tenha passado, ainda carregamos alguns traços dele, é triste demais, mas infelizmente real. Achei sua resenha extremamente bem escrita!

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  6. Olá!
    Eu quero muito assistir essa adaptação. A história é incrível e muito intensa. Infelizmente até os dias de hoje essa diferença entre classes, raça, mesmo que as pessoas levantem inúmeras bandeiras, ainda vemos e sabemos como o povo sofre por causa dessas diferenças. Esse livro é do tipo que paramos para refletir o tempo todo sobre a humanidade.
    Beijos!

    Camila de Moraes

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