Resenha #229: Meio Sol Amarelo

Título: Meio sol amarelo
AutoraChimamanda Ngozi Adichie
Editora: Companhia Letras
Nº de Páginas: 504
Em meio à guerra fratricida que dividiu a Nigéria com a malograda tentativa de fundação do estado independente de Biafra, um grupo de pessoas busca provar a si mesmas e ao mundo que é capaz não só de sobreviver, mas também de resguardar seus sonhos e sua integridade moral. Garoto de aldeia, Ugwu procura se ajustar a uma realidade em rápida transformação. Olanna é uma moça da alta sociedade que se torna professora universitária e vive com Odenigbo, que abraça a causa revolucionária. Jornalista com ambição de se tornar escritor, Richard se apaixona pela irmã de Olanna, Kainene, figura esquiva, que reage com pragmatismo ao desmoronamento da nação. Baseado em fatos reais transcorridos na década de 1960, este romance da premiada escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie vai além do mero relato, transformando- se em um grandioso painel sobre indivíduos vivendo em tempos de exceção, um livro que a crítica internacional aproxima de V. S. Naipaul, Chinua Achebe e Nadine Gordimer.
Olá pessoal, tudo bom com vocês? Existem livros que terminamos a leitura e levamos um bom tempo para poder falar deles, para digerir tudo aquilo que a história nos entregou. Quando nos deparamos com livros assim, o melhor que temos a fazer é parar, refletir e conversar sobre ele apenas quando estamos realmente prontos. Meio sol amarelo, da Chimamanda Ngozi Adichie foi uma dessas situações para mim, mas sinto que agora, semanas depois, chegou a hora de conversar sobre ele. Que tal conferir minhas impressões de leitura?
Explicando de uma maneira bem superficial e sem querer esgotar a temática que é muito mais vasta e complexa, é de conhecimento geral que a África foi dividida pelos europeus de acordo com seus interesses econômicos, sem levar em conta as tribos que ali existiam, suas crenças, religiões, nem os territórios que já eram ocupados pelas mesmas. Isso, dentre muitos outros aspectos, acabou por culminar diversos conflitos nos países africanos.

No caso da Nigéria, em relação à guerra civil Nigéria/Biafra retratada neste livro, não foi muito diferente. Devido aos conflitos armados, houve uma revolta contra o povo Igbo, resultando em um genocídio. Os Igbo se refugiaram no sul do país, proclamando a independência do estado de Biafra. No entanto, no referido território se encontrava a maior parte do petróleo da Nigéria, bem como um dos principais portos, o que gerou represália por parte da Nigéria, culminando em uma guerra civil que matou milhares de pessoas.

A grosso modo, este é o contexto histórico de Meio Sol Amarelo.
Ugwu é um garoto de aldeia sem muita instrução que buscar se adaptar a uma rápida transformação. Olanna é uma moça de alta sociedade que está se mudando para casa de seu amante Odenigbo, um dos apoiadores dos revolucionários. Sua pretensão é dar aulas de sociologia na universidade. Richard é apaixonado pela irmã de Olanna, Kainene. Ele é um inglês que está passando um período na Nigéria com ambição de se tornar escritor, de se encontrar em sua profissão através de suas vivências.

É através da visão destes três personagens fictícios que acompanharemos suas questões existenciais, bem como o desenrolar deste enredo baseado em fatos reais, que transcorre toda a década de 60 e nos mostra como foi a Guerra Civil Nigéria-Biafra, quando da tentativa da fundação do estado independente de Biafra.

Aqui temos um relato de anos, onde vemos todos os impactos desta guerra civil na vida da população. Acompanhamos o sonho de um estado independente, as represálias. Todos os horrores oriundos desta guerra e uma visão muito realista de seres humanos vivendo em tempos de exceção.
Conhecer esta realidade sob o ponto de vista de três personagens tão distintos é uma experiência única, afinal, um jovem pobre, sua patroa de classe alta e um inglês que não está tão habituado àquela realidade não teriam a mesma visão sobre tudo o que estavam vendo. Acompanhamos através dos três uma jornada cultural, histórica e humana, ante o sofrimento, decepção, o luto, a perda da inocência e da esperança.

É ímpar a forma como a autora conseguiu apresentar uma narrativa tão complexa e completa, com personagens extremamente humanos, que despertam as mais variadas emoções no leitor, ao ponto de nos esquecermos por alguns momentos que tratam-se apenas de personagens. É possível, através da leitura, sentir os anseios, os medos, o desespero dos personagens. Não há como não se emocionar vendo seres humanos reduzidos a uma miserabilidade extrema onde a palavra de ordem é sobreviver.

Aqui temos personagens ímpares, que nos são apresentados desde o início e que tem um crescimento surpreende em meio a todo o enredo, de uma forma extremamente real e tocante. Eles passam por provações, fazem escolhas e tentam sobreviver, tudo isso em meio a falhas e acertos. 

Através da escrita de Chimamanda, que envolve e emociona, nos somos presentados com um enredo que além de uma verdadeira aula de história, é extremamente humano e visceral. Este é um livro capaz de despertar as mais diversas emoções a cada virar de páginas, nos mostrando um viés histórico que muitas vezes não conhecemos e que, de maneira alguma, devemos ignorar.

Este foi um livro que me emocionou ao longo de toda sua leitura, me levando por diversas vezes às lágrimas.  É o tipo que livro que me faz sentir que todos deveriam lê-lo, vez que nos tira da bolha em que vivemos, de nossa zona de conforto. Ele não é um conto de fadas e nem mostra uma realidade bonita, mas, caro leitor, sinto informar que é necessário conhece-la. Esta é uma leitura imprescindível, daquelas que nos tornam um pouco mais humanos e é por isso que a recomendo hoje a todos vocês.
E caso você já tenha lido este livro e ainda não saiba, o mesmo fora adaptado para o cinema em 2013, tendo Thandie Newton no papel de Olana, Chiwetel Ejiofor como Odenigbo e Joseph Mawle como Richard.

O filme não chega aos pés do livro, devo confessar. Muita coisa ficou de fora e achei que faltou mostrar um pouco mais da realidade da população durante a guerra civil. Apesar de artificial, se você gostou do livro, vale a pena dar uma chance à adaptação e conferir a história da Chimamanda em um formato diferente.

Se não tiver lido o livro ainda, não recomendo que comece pelo filme!

E é isso pessoal! Espero que tenham gostado da dica de hoje! Não deixem de comentar, ok? Beijos e até o próximo post!

7 comentários:

  1. Olá!

    Livros que envolvem a guerra sempre mexem comigo, esse com certeza não seria diferente, ainda mais tendo como cenário a Nigéria.
    Com certeza deve ser um livro muito emocionante, e ter o ponto de vista de três pessoas completamente diferentes torna a narrativa do livro mais especial!

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  2. A tua resenha me lembrou um pouco de Teoria Geral do Esquecimento, do José Eduardo Agualusa. Só que no Teoria a guerra ocorre na Angola. Eu gosto muito da literatura africana, sempre que posso dou uma lida em algum autor. Esse é um dos livros que quero muito ler, já está na minha lista de leitura, e assim que der irei lê-lo. Muito boa tua resenha.

    Beijos.

    Books and Movies
    www.booksandmovies.com.br/

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  3. Olá, Pollyanna!

    Eu sonho em conhecer os livros da Chimamanda, mas infelizmente ainda não tive a oportunidade. :( Gosto muito de livros que misturam acontecimentos históricos importantes com ficção, nos fazendo mergulhar na realidade de vida das pessoas que viveram naquela época, para que tenhamos empatia, para que saíamos realmente da nossa zona de conforto e entendamos que o mundo vai muito além daquilo que conhecemos, e que muita gente já pagou (e segue pagando) pelo ambição de grandes potências. É claro que vou querer ler o livro e conhecer o ponto de vista desses três personagens tão diferentes uns dos outros.

    Bjs!

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  4. Oi, amei sua resenha!!! Da autora eu já li Sejamos todos feministas e No Seu Pescoço e fiquei encantada com o potencial dela de falar sobre a História da Nigéria através da ficção. Já quero muito ler Meio sol amarelo.

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  5. Oi tudo bem?
    Não conhecia a obra, mas achei a proposta dele ótima, parece um daqueles livros que é um soco no estomago que acorda para a realidade que precisa ser mostrada e discutida
    bjos

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  6. Olá, tudo bem?

    Já conhecia o livro por meio de outros blogs/igs literários, mas confesso que nunca li os livros da autora. Acho interessante a premissa e deve ser uma leitura super reflexiva. Gostei da resenha!
    Abraço!

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  7. Não li ainda, mas só pelo que você contou na resenha já me deixou de coração partido ver parte de um povo ser destruído aos poucos aos longos do séculos é tão triste, vê o quanto ate hoje essa dita colonização vem acabando com meu povo me deixa de coração partido, vou colocar na minha lista e assim que tiver folego vou ler.

    www.coisasdemineira.com

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